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FRANCO, Emmanuel. Biogeografia do Estado de Sergipe. Aracaju: Segrase, 1983.
Por Cleverton Costa Silva *
Emmanuel Franco (1919-2008) foi engenheiro agrônomo, atuou como Livre Docente em Biogeografia na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e professor da antiga Escola Agrotécnica Federal de São Cristóvão (EAFSC), atual Campus de São Cristóvão do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe (IFS). Emmanuel Franco prestou serviço também como agrônomo vinculado ao Ministério Público Federal (MPF) e foi membro da Academia Sergipana de Letras.
Sobre Emmanuel Franco, um ex-aluno relata que, desafiado por outro aluno a descobrir qual “patologia” afetava um coqueiro que apresentava um furo em uma de suas folhas, ele atribuiu a causa a um “problema de aluno mal aplicado”. Emmanuel estava certo em sua irônica resposta, pois seu aluno havia queimado a palha do coqueiro com uma ponta de cigarro.
Como produtor de conhecimento científico, Franco lançou em 1983 a sua Biogeografia do Estado de Sergipe, obra que descreve os principais aspectos do clima, dos solos, da flora e da fauna sergipana. Na introdução, o professor Murilo Macedo reconhece na obra um caráter interdisciplinar e a vê como um guia de iniciação e planejamento do território sergipano. Macedo recomenda a obra para estudiosos da ecologia, economia agrícola, reflorestamento, agricultura, geografia e, com adaptações, para o uso nas aulas de 1º Grau.
É notável o reconhecimento do caráter interdisciplinar na obra lançada em 1983, já que apenas nos últimos anos destes séculos XX e XXI as práticas interdisciplinares estão sendo mais bem difundidas na nossa sociedade. A utilidade da obra extrapola a fronteira delimitada por Murilo Macedo, pois climatologistas, geólogos, historiadores, turismólogos, biólogos, químicos, ambientalistas e diversos outros estudiosos podem se beneficiar deste trabalho de Emmanuel Franco.
Biogeografia do Estado de Sergipe peca apenas pela ausência de mapas e fotografias para melhor ilustrar os solos, a flora e a fauna, pois no livro existem apenas mapas com o cenário climático sergipano. A ausência destes elementos dificulta especialmente a compreensão das particularidades do espaço sergipano, já que a pura leitura torna o exercício da compreensão mais cansativo.
Sobre o clima sergipano, Franco analisou 24 locais e constatou, por exemplo, que Porto da Folha (Sede) e Ilha do Ouro (povoado), situados no mesmo município de Porto da Folha, têm níveis de chuvas diferentes. A Ilha do Ouro fica a cerca de 7km de Porto da Folha e à beira do rio São Francisco, mas tem menor pluviosidade, sendo até mesmo mais seco que muitas regiões do Ceará, onde as secas chegam a níveis extremos de aridez. É relatado ainda que as massas de ar que ocorrem em Sergipe são três: a Massa Equatorial, que ocorre em abril, maio e junho, soprando de oeste para leste; a Massa Polar, em julho; e a massa Tropical, em novembro, que sopra de sudeste para nordeste.
Os solos sergipanos apresentam configurações diversas. Devido à pluviosidade e proximidade com o mar, os solos de regiões úmidas se localizam mais ao litoral, enquanto os de regiões áridas se localizam mais para o interior. No litoral, alguns solos são os indiscriminados de mangue, ricos em sais minerais e matéria orgânica depositados pelas marés; os orgânicos, localizados em várzeas, charcos e pântanos; gley húmico, que ocorre em pontos das bacias dos rios São Francisco, Sergipe e Piaui, onde se cultiva arroz, extrai-se o barro e o utiliza como área de pastagem.
Ainda no litoral, outros solos condicionam importantes culturas em Sergipe, a exemplo do podzólico vermelho-amarelo e derivados, onde se cultivam a cana-de-açúcar, mandioca, feijão, milho, coco, caju e mangaba. Vale destacar, pela importância da cana-de-açúcar para a economia sergipana, o conjunto de solos que resulta no solo de massapê: o vertisol, o brunizem avermelhado e a rendzina. Estes solos são abundantes na microbacia do rio Cotinguiba e deles se originaram a riqueza e importância da região, influenciando até em decisões como a da construção de Aracaju, atual Capital de Sergipe.
Nas regiões áridas, os solos apresentam menor variação. O solonetz solodizado, no vale do rio Real, é utilizado para a pecuária extensiva, a cultura do milho, feijão, algodão e mandioca, sendo pouco aproveitável economicamente. O bruno não-cálcico fica a noroeste do Estado, nele se cultivam também milho, feijão, algodão e capins forrageiros e a sua vegetação é de caatinga. Nas regiões banhadas pelo São Francisco, predominam os solos de regosol e associados, arenosos e com presença de cascalho. A vegetação e a cultura agrícola são semelhantes às outras regiões áridas.
Ao abordar a vegetação, Franco explana didaticamente a distinção entre formações perenifólias (espécies vegetais que nunca perdem as suas folhas) e caducifólias (aquelas que apresentam queda das folhas ou espinhos como estratégias para a retenção de água), havendo também espécies mistas. Franco apresenta ainda a distribuição da vegetação ao longo do território sergipano.
No litoral, espécies vegetais predominantemente perenifólias se desenvolvem no manguezal, na floresta atlântica, em praias e dunas, em campos e matas de restinga e de várzea. Estes ambientes já estavam seriamente ameaçados pelas intervenções antrópicas, a exemplo do uso do manguezal para a construção civil e como combustível. Acerca da mata atlântica, Franco previu o seu total desaparecimento até o ano 2000. Em pleno ano de 2011, as previsões do autor não se concretizaram, mas o seu diagnóstico pessimista não está muito distante da realidade.
Nos demais ambientes litorâneos, algumas espécies vegetais chamam a atenção. Nos campos de restinga, os facheiros e cabeças-de-frade da caatinga se apresentam como espécies adaptadas. No decorrer da atividade açucareira, os engenhos aproveitavam a lenha extraída da mata atlântica. Nos engenhos, o bambu trazido da Índia também alimentava os fornos, enquanto os troncos de aroeiras e itapicurus serviam como esteios.
Na transição entre floresta atlântica e caatinga, encontram-se os domínios do cerrado sergipano, englobando principalmente as serras de Itabaiana, Comprida, Ribeira e outras do Domo de Itabaiana. Deste ambiente híbrido resultam espécies resistentes ao fogo (pirófitas). No cerrado, são encontradas mangabeiras, cajueiros, ouricurizeiros, mandacarus, etc. Do cerrado surgem variações como: campo cerrado, com moitas e pequenos bosques; mata galeria, com grotas e riachos; e o agreste, quando os arbustos predominam sobre as árvores.
Franco dedica atenciosa análise à flora da caatinga, classificando-a em hipoxerófila (“Boca da Caatinga”) e hiperxerófila (onde ocorre clima mais seco). A análise da caatinga destaca os usos de algumas espécies vegetais pelos sertanejos, a exemplo do umbuzeiro e os seus suculentos frutos, da braúna com a qual se fazem cancelas e currais, das cascas do angico de onde se tiram os corantes para o beneficiamento do couro, e também da craibeira, que chega a atingir 15m e se encontra às margens de rios, de onde se tira a madeira para as prensas das casas de farinha e as rodas dos carros de boi.
Último ponto abordado na obra, a fauna (aquática, aérea e terrestre) é apresentada ao longo dos ambientes que integram o território sergipano. Dos mangues com uçás, siris, aratus e outras espécies, passando por aves apreciadas nos céus ou gaiolas como o caboclinho, curió, cabeça e beija-flor. Nos campos e matas são citados os sapos, capivaras, socós, tatus, guigós, teiús, gaviões, abelhas, onças, bagres e outras espécies que enriquecem a obra.
Não obstante a rica descrição da biogeografia sergipana, Emmanuel Franco aponta para a necessidade de se criar e manter em Sergipe Reservas Biológicas (ReBio). O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), estabelecido pela Lei 9985/2000, abriu espaço tanto para ReBios quanto para outras unidades de conservação em Sergipe, a exemplo da ReBio Santa Izabel (Pirambu), Floresta Nacional do Ibura (N. Sra. Do Socorro), Parque Nacional Serra de Itabaiana (Areia Branca/Itabaiana), Área de Proteção Ambiental Morro do Urubu (Aracaju) e Litoral Norte (Barra dos Coqueiros a Brejo Grande), Refúgio da Vida Silvestre Mata do Junco (Capela), Monumento Natural Grota do Angico (Poço Redondo) e Reserva Particular do Patrimônio Natural do Caju (Itaporanga D’Ajuda). Atualmente, estas unidades de conservação são as principais trincheiras da luta pela defesa de todas as formas de vida em Sergipe, e a Biogeografia do Estado de Sergipe é um guia essencial para este fim.
* Guia de Turismo e Tecnólogo em Gestão de Turismo pelo Instituto Federal de Sergipe; Especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade São Luis de França - clevertonsilva@gmail.com.